A crise como ela é...

Ligo a televisão, começo a "zapear" e paro no canal "INCA" (instituto nacional de cinema argentino, ou algo assim) e confundo uma atriz argentina (Norma Aleandro) com a Eva Wilma (parece um pouquinho...). Então, num primeiro momento pensei que era um filme brasileiro, mas logo me dou conta que meu grau deve ter aumentado. Mesmo assim continuo vendo o filme pois a cena me chama a atenção.






Uma senhora está conversando com sua empregada doméstica. Depois lhe entrega a carta de recomendação, e a acompanha até a porta. A emprega leva uma maleta na mão. A senhora volta e fica aquele ar melancólico dentro da casa.

Depois aparece a mesma senhora em um apartamento menor e uns rapazes carregando a mudança. Logo dizem que nem tudo caberá nesse apartamento. Então, aparece a senhora no caminhão de mudanças indo para um lugar que, provavelmente, faz referência à Província de Buenos Aires, com ruas sem asfalto.

Então a senhora desce do caminhão, vai até a porta de uma casa visivelmente de família pobre, chama batendo palmas e aparece sua empregada. A senhora entra, toma um chá gelado que a outra lhe oferece. Enquanto isso, os rapazes começam a trazer alguns móveis, entre eles um piano, que pelo diálogo, percebemos que não caberia no apartamento.

E no final, a empregada pergunta se ela não deseja dormir lá, já que está ficando tarde. E como cena final, aparecem os rapazes levando uma cama para dentro da casa. E assim termina o filme.

Ok, o filme terminou. Não tenho a mínima idéia de que filme é, mas o que quero chamar a atenção é que não é necessário saber qual é o filme para afirmar, só com essas cenas, que retrata a crise de 2001 aqui na Argentina.

É interessante ver como a crise afetou o povo e como isso ficou  marcado na lembrança dos que a viveram. E mais ainda, que só eles têm noção de como isso os afetou. Só fui ter uma idéia da dimensão desta crise ao estar aqui e escutar, muitas e muitas vezes, as dificuldades e conseqüências deste ano tão sinistro, em seu sentido próprio.

Uma vez, numa aula do mestrado, uma professora contou que, claro que com uma certa generalização, só quem continuou empregado nessa época foram os professores, os médicos e os policiais. As demais carreiras passavam por momentos de muita incerteza. Disse que seu marido, arquiteto, chegou a entrar em depressão, pois perdeu o emprego e levou muito tempo para conseguir outro. Um profissional que sempre trabalhou.  

Também numa outra aula da faculdade, há pouco tempo, recebemos alguns representantes de jardins comunitários que foram expor o trabalho social que fazem. E três deles, contaram que os jardins surgiram coo conseqüência da crise de 2001, pois o governo já não conseguia manter tantas vagas e, em muitos casos, mulheres que eram donas de casa, passaram a precisar de um lugar para deixar seus filhos, pois precisariam sair para procurar emprego, tal como seus maridos.

E foi justo nesse período, no qual não havia emprego, não havia perspectiva, que as pessoas começaram a se reunir em seus bairros para tentar encontrar soluções para os problemas que atingiam a todos que partissem da coletividade. Os argentinos dizem que nesse período muitas famílias deixaram de pertencer à classe média para descender à classe pobre. E as que já eram da classe pobre... acho que nem precisa explicar mais. Com isso, cresceram as iniciativas nos bairros, que contavam com o apoio mútuo dos moradores de cada lugar.

Além disso, o governo teve que tomar medidas extremas como a política de subsídios, que está até hoje. Assim, atualmente, o transporte, a luz, a água e o gás, ainda são subsidiados pelo Estado.

Ou seja, a crise atingiu os argentinos, muito mais do que pensamos. E se percebe que ainda há muito o que se discutir nessa história, pois foi algo que os atingiu de tal forma que se faz necessário discutir, re-discutir, ver de outros ângulos, até a ferida sanar.

Por isso é possível encontrar vários filmes, livros, investigações, documentários (...) que abordam o tema. E tenho certeza que muitos outros ainda vão existir até que se consiga esgotar essa melancolia e essa sensação de impotência que vi hoje a través da belíssima interpretação de Norma Aleandro, nesse filme que nem sei o nome.

Já falei aqui sobre um livro que, de certa forma, fala sobre essa crise Argentina, é o "As viúvas das quintas-feiras" da Cláudia Piñeiro. Quem quiser saber mais, clica aqui.

Besos.

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